< "O sertão é do tamanho do mundo."- J. G. Rosa

30.1.07


É hora do recreio. Não ouviu o sino?

:: Dyego Saraiva ::
1:08 AM :: |
24.1.07


eta nóis...

...
"ouvi uma piada: Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: 'o tratamento é simples: O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animá-lo. O homem se desfaz em lágrimas, e diz: ' mas doutor... eu sou Pagliacci.'"

em Alan Moore´s Watchmen, capt 2, pg 27.

:: Dyego Saraiva ::
1:15 AM :: |
18.1.07


plantas

Uma videocassetada do Faustão me fez rir. Uma voz, a do meu pai:

"tome conta das plantas..."

Ele olhava pra mim como se estivesse ali há um bom tempo, e eu nem tivesse notado.

"tome conta das plantas."

Meu pai é filho de agricultor, que sustentava a larga família vendendo queijo, verdura, sandálias... e entendi: meu pai tava me dando adeus.

Há muito desgastado, o casal-meus pais decidiram separar as escovas de dentes. E era esse o momento que- já disse.

Nunca foi muito de falar, de pôr pra fora esse negocio de sentimento, essa coisa bizarra para um homem feito pra ser homem mantenedor de família, forte, soldado, hail!.

(Aprendi a ler todo tipo de gente, além do meu velho.)

Ele saiu, se agachou, pegou a mangueira e aguou. Sei por que o segui. Cheguei bem perto, com vontade de abraçar ele, eu tava perdendo meu pai, poxa. Mas escutei um fungado meio suspeito e afastei. Chorava?

Vi que ele não aguava só as plantas, não, era como se ele aguasse a gente, a vida da gente, as plantas sendo da importância que são, eu tendo agora que agua-las, cuidar da mamãe, dos dois irmãos, de mim: plantas.


:: Dyego Saraiva ::
6:22 PM :: |
15.1.07


A máscara de ferro. Da grande história que é a dos 3 mosqueteiros, é essa a grande imagem. O rosto inexistindo, por violência, de repente, não-rosto. Por só e apenas respirar, tiram-lhe a face, para que outra seja rei. E assim vai, por mais de dez anos, num cárcere duplo: corporal e visual: o rosto.

Os tantos entardeceres, anoiteceres, amanheceres, num bloco único de tempo-espaço global onde o tudo é ali, e o agora se estende lentamente para o nada. Sem percepção de boca, nariz, orelhas, o sofrimento é enlargecido, como no caso do Prometeu que está até hoje numa pedra, seu fígado servindo de comida aos corvos.

Até que um dia o salvam. Levam-lhe, lavam-lhe, tiram-lhe a máscara. O universo não é mais quadrado nem cheio de pedras. Ele teme, põe a máscara, pois nela tudo era real, já o mundo alheio é coberto, de corpo inteiro, por uma máscara.


:: Dyego Saraiva ::
8:08 PM :: |
7.1.07


Mas o pior mesmo seria o não nascer, já dizia o Quincas Borba. O ano que passou foi, em uma frase, construído: Me dê uma sala de aula e saberás quem sou. Foi o que disse à minha futura chefe, visto que minha entrevista pífia já me execrava daquela escola. Não nasci pra dizer quem sou, nasci pra fazer o que sou. Na verdade eu posso ser o que quiser, basta acreditar na validade da coisa e puf, estou lá. Tá, trapezista eu nunca seria. Nem dançarino de Can-can. Nem Power-Ranger. Uma coisa: queria muito que alguém quisesse um roteirista, porque se alguém quisesse, eu ia querer.

Meu primo, bêbado, disse que seria marxista a partir daquela noite, ainda naquela festa. Seria algo belo, caso não fosse um burguês-sustentado-pelo-pai. Todo bêbado fica rico, mas esse queria ficar pobre. "Parabéns", lhe disse. Festas. As pessoas nas festas sabem do meu profundo e inenarrável tédio em festas da família, ou em quase todas as que mostro minha figura, visto que ainda não compreendi bem qual o sentido delas: Há os casais, que chegam de mãos dadas, falam com o aniversariante, se for o caso, sentam. Sorriem para os outros que lá estão, e ficam, um encrustado ao outro, como coral numa pedra. Os solteiros procuram os solteiros, para conversar, lógico. Situação melhor que a dos casais, visto que podem olhar pras bundas das solteiras e também das casadas. Contam as mesmas piadas de 375 festas seguidas e riem, com um copo na mão, o ombro meio mais alto que o outro, um charminho que só os bombados têem, de ficar se mexendo, como numa dança que tem o nome de "veja meus músculos, quer trepar comigo?". Então estou lá, sentado, um copo na mão, tentando entender aquilo.Aí algum daqueles bêbados chega, senta do meu lado e diz 'Tu num gosta dessas música, néam? tu é roquêro, traz uma maconha aí!'.

Pior seria não nascer, ou como aquele senhor que tinha um saco grande e sentou em cima das bolas quando entrou no carro.

Graças a D- a mim mesmo, obrigado, fiz amizades fortes e que pude falar sobre Guimarães Rosa sem ser perguntado se ele era parente do Murilo, o Rosa. Pena que isso só foi 10% do meu ano, porque o resto foi dormindo, comendo, na frente dum quadro-branco e olhando pro nada. Brás Cubas devia ter inventado aquele maltido emplasto antes de morrer. Pipocas.

:: Dyego Saraiva ::
1:02 AM :: |
3.1.07


"(...) Dora: seu boné vermelho, sua mão passando pela cerca, os dedos batendo nos paus enfiados na terra, o olhar baixo. Os carros passandopassando, um saco voa, descompromissadamente, sem alegrias ou tristezas, sem peso, se vai. A organização de asfalto, postes e casas, um mundo de formas inexpressivas e mortas, lhe encontrando e perguntando 'estou aí? Isso seremos todos, essa comunhão com o asfalto?'"

De "Dora e Lipe".

:: Dyego Saraiva ::
3:22 AM :: |