
29.8.06

O caminhar é observante, perscrutador, criativo: Será que é essa? Poderia ser ela? e se?. As diferentes combinações de elas se acumulam em seu pouco conhecimento das que ovulam, como se ele se apaixonasse todo dia, e as vidas possíveis voassem por todos os lados, trinta, quarenta, cinquanta anos em segundos, em passos largos a caminho de casa.
A viagem de qualquer pessoa pode ser falada, cantada, silenciosa, sendo essa terceira a mais barulhenta, unicamente e há de se descobrir que ouvimos sons de fora para escapar dos de dentro, amamos falar e ouvir, como defesa genética ao barulho da evolução. Morte aos ouvidos, cordas vocais e, caso seja eleito de novo, prometo arrancar os olhos. Afinal, algo que tem a substância de uma sombra pode ser tão poderoso assim?
Ele abre o portão de casa e a pergunta fica para amanhã.
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:: 12:11 AM ::
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26.8.06

quando desligo a tv.
É uma farsa. Essa família é sustentada sobre uma tv ligada, ausências e faz-de-conta. O faz-de-conta das novelas invoca a catarse, a auto-negação, ninguém fala sobre, ninguém fala sobre nada. O pragmatismo, o cotidiano, os problemas, o dinheiro e sua falta, falar do cotidiano é a forma de famílias falarem entre si. As bocas se abrem para competirem os egos, não as verdades, dez minutos diários pra provar a mentira que ninguém vê, além de mim, que, de certa forma tem participação no empurramento que é essa instituição; um que engana duas meninas e suas vidas, um de vida dupla, que tem a sorte de ter um carro e carteira de motorista, uma mulher que tenta passar o máximo do dia fora de casa, para chegar e buscar o mundo de fora na tv, ou seja, estar dentro e fora ao mesmo tempo, para tapar as carências, a frustração do casório que é sua vida (ela grita e esperneia, não sabe nem o que é que dói, nem onde dói), do vazio que mantém seu marido em pé, este por sua vez, foge declaradamente de quaisquer formas de subjetividade como o diabo da cruz, temendo ver o nada de dentro, há um grande nada por aqui, enquanto eu me esforço pra trazer algo de verdade pra essa gente, e, claro, sou o ausente da família, também fujo dentro de uma sala, outro frustrado de ter genes de um pai-criança, decepcionado, sim, e fraco por não ter poder contra isso. Desligo a tv porque quero que, por um instante, o pano caia.
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:: 8:29 PM ::
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17.8.06

Das cantorias do sr Croissant.
Orgulhosamente galopante, o cão da raça Bearded Collie, americano, puro, vários títulos cachorrais, todos bem cantados e recitados pelo dono da loja o sr Croissant, devidamente reverberados à soberba através do ser puxado pelo cão, ou seja, seo Joaquim, que por acaso é o dono, não da loja, mas do cachorro.
E a história continua lá pelas bandas do Condomínio Santa Fé área ampla bem-localizado piscina quadra de tênis conforto e lazer para toda sua família, ao som de "Olá Joaquim, belo cão, Oh, que belo Collie, que cachorro lindo, seo Joaquim, blá, blá!", e essas coisas que as pessoas dizem aos cães. Seo Joaquim, por sua vez, mal se cabia por dentro, de uma forma que havia de ostentar ao povo o que tinha do lado de fora. E num foi que no meio de um sorriso inflável o cão teve de parar? Blair, do alto de sua Collieza, uma hora haveria de cagar!
Seu dono empaca, esticando a coleira de 180 reais que o vendedor descontou junto com a ração e a tosa. Blair, o cão, abre as pernas de uma forma tão indiferente e pragmática que o homem lembrou de sua esposa, o que o fez puxar a cordinha com mais força, inutilmente, claro, pois o bicho estava em plena obra, em plena desconstrução do Marxismo, derrubando a Bastilha e anarquizando o império! Seo Joaquim paradamente assistia Napoleão invadindo a Rússia, os bárbaros invadindo Roma, Jesus entrando na igreja montado no lombo de um jegue.
Os vizinhos mal se cabiam.
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O que habita
:: 10:56 PM ::
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15.8.06

A vocês, hedonistas, epicuristas,
Pregando o prazer sem limites,
(Amantes do Caos)
Nas costas dos que os sustentam,
Parasitas do Capitalismo,
(Amantes da Ordem)
Seres beberrões sorridentes,
Vivendo a vida no mundo e com ele,
Orgasmizando todas as relações,
De todas as formas,
Sugando o profundo do emocional para si,
Pragmatizando o próximo,
Malditos.
Malditos e mais malditos por fazer-me invejá-los.
Por me fazer buscá-los,
E ser um de vocês.
Morram Beatniks.
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O que habita
:: 11:18 PM ::
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2.8.06

Seu olhar é pidão, olhar de me veja, me toque, estou aqui, me veja, sinta minha existência, ela o abraça, seu olhar é pidão, ele meio caindo meio bêbado meio rindo meio gente, ela o abraçabeija, ela o quer, ele e seu hálito alcoólico, ébrio, libertino, cafajeste, Antonio, João, Francisco, Pedro, Sérgio, ele é todos e é um e o som segue a dança do acasalamento, os seres em profusão erospsyche, o Belo teimando em força, ela o quer, que a veja, que a toque, o odor de seu pai, o odor do homem, ela quer seu sexo, o suor, o mexer na cama, a mão à procura, os dedos se mexendo dentro, dentro, ela quer o sim, o aperto ao peito, existir.
trecho de Johana: Descriação, ep 9.
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:: 6:51 PM ::
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