
25.1.06

Primeiro vem a frigideira, que estava escondida em algum lugar da dispensa. Os ovos caipiras dos bons: dois, ficam na porta da geladeira. Resolvo fazê-los na manteiga pra ser mais gostoso.
Ovo na manteiga é caro.
O fogo ligado e a manteiga derrete na colher e eu vou quebrando o primeiro ovo. Minha mãe quer morrer. Sei que isso pouco tem a ver com ovos fritos, mas é o que me ocorre enquanto quebro o segundo dos filhos não nascidos da galinha. E não posso fazer nada, ou quase nada. Só a afago durante os choros. Choros de quem perdeu a vida com um homem vazio e pobre. A juventude se foi e diversões não são possíveis. A vida se foi. Não há pai nem mãe, não há marido, e os filhos, mudemos o assunto. O cheiro vai bem, obrigado. Busco o sal, encontro e lá vai.
Gosto deles mexidos, com o amarelo misturando ao branco, fazendo um bolo único e saboroso. Passo a mão nos cabelos e ainda sinto o frio da tesoura escalpelando a revolução: "O emprego é bom", disse mãe. Mãe, te amo. E tinha que estar apresentável. Apresentável como uma puta vendida. E enquanto sentava na cabeleireira, caíam os fios pelo meu rosto, assim como caiu a União Soviética, os Marxistas, os Leninistas, os Lulistas. A puta-eu fui entrevistado para ser considerado apto a fazer dinheiro. Fidel, seu dia vai chegar.
Raspo os ovos que não são mais ovos e ponho-os no pão. "Solte os cachorro", diria uma loira.
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:: 1:51 AM ::
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22.1.06

A agorafobia cede. Esforço-me, desesperançosamente, à interação com humanos. Na festa, meu coração é escuro. "Esse é meu grupo", penso. Mas eu quero ir pra casa!
As pessoas estão doentes. Os romances não são mais best-sellers e Deus anda com menos poderes (menos ainda o diabo). No lugar, estão scraps de Orkut, celulares ansiosos por chamadas, meias-palavras, sombra preta nos olhos, entrelinhas, All-Star, sarcasmo. Estrogênios procurando iguais, tapando uma poça de ódio, lágrimas e frustrações. Machos gritando que são machos, embarcando numa revolução de ar.
pra casa, por favor.
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:: 4:23 PM ::
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17.1.06

Uma vez o lápis pôs-se a pensar, e foi isso que ele pensou:
Eu escrevo, eu desenho, eu rabisco, eu falo. Mundos eu crio, e teorias e cálculos e imagens. Já fiz cartas de amor, a sentença de morte, fui ferramenta de Michelangelo a Picasso. Já comprei, já vendi, já mostrei e já escondi no fundo do armário. Fui de pedra, pena e madeira. Já viajei o mundo inteiro e fui ao espaço com os astronautas. No entanto, não sou livre, como você deve achar. Enquanto solto, sou energia em potencial, tenho o mundo e o universo perfeitos e harmônicos, à espera da mão que me aperta, e desequilibra. E no papel falo de coisas simples, como as que acabei de citar. A liberdade me vem quando me largam, ou quando sinto o aperto suave da mão do poeta.
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:: 9:20 PM ::
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12.1.06

Lepra,
Da letra alheia.
Minha mente, como a dos humanos iguais (a mim), procura alegrias.
(Oh, ganhei o Nobel de psicologia.)
Uma vez me passou pela cabeça por que os tais pensadores morrem tão infelizes, coitados.
("Pensadores". Isso é um substantivo? Um adjetivo? Que raça é essa de gente que pensa que pensa?, penso. Eu penso?)
Voltando ao pensamento (?). Ensimesmar é um problema.
(oh, ganhei OUTRO Nobel.)
Ei, é sério. Esse povo se ensimesma e vira pensador, óia que bacana? Ein, Virg?
Joyce, meu chapa! Nietch, como vai teu pangaré? Ele já te pediu um copo d´água? Tens visto o Proust?
Droga. Acho que fugi do assunto de novo. Na verdade a parte em negrito é auto-explicativa.
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:: 5:22 PM ::
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3.1.06

Sem título
Eu tenho um filho, sou adulto. Me disseram que estaria adulto aos 18. Adulto é um nome. "A-dul-to". É assim? Não importa, nunca precisei mesmo disso pra ser alguém. Odeio ler e escrever. Pra que isso, afinal? Posso viver sem isso. Tá decidido: conhecer por meios teóricos não farão parte da minha juventude e velhice, o que me acarretará uma falta de conhecimento morfossintático e semântico, provando a ficcionalidade deste texto, visto que não sou eu quem o escreve, e sim alguém que me detesta e não tem coragem de me dizer pessoalmente.
Como passamos por tempos medíocres, conseguirei uma vaga em uma importante empresa indicado por um amigo meu, e assim trabalharei por 25 anos em vários horários diferentes, num birô em uma sala com mobílias perfeitamente setentistas e oitentistas. Como já foi citado por aqui, não lerei muito, assim, minhas relações com colegas e amigos se resumirão a "as pernas da secretária", "a vida íntima e chacoteável dos meus colegas", "quando vamos beber", "pois é." e, por fim, "...".
A minha esposa deverá ficar em casa, para que outros homens não vejam ou a desejem, porque já estou ficando gordo e careca e talvez ela encontre alguém que fique mais de cinco minutos por cima dela. Se ela for um sonho submissão, também será um problema, porque, como já foi citado por aqui, não lerei muito, então, se ela me obedecer sempre e sempre, não haverei motivo para brigarmos, então terei que bater nela sem nenhum motivo plausível, o que não é direito.
Eu tenho um filho. Veja, já estou me repetindo. Ouço as risadas do autor desse texto. Eu tenho um filho. Ele é a prova de que posso fazer uma pessoa. E ele será minha imagem e semelhança: um homenzinho que come de talheres, abre a porta para as meninas para que ela meia hora depois abra as delas, coça o saco, cheira e cospe com um catarro recém-puxado da garganta. Farei com que estude, sim, para que ganhe mais dinheiro do que eu e ajude o seu pai na velhice. E nada mais. Não quererei que filho meu leia muito, queira mudar a sociedade vigente, vire gay, essas coisas. No entanto, para ter algo para fazer na minha velhice vazia, falarei tanta merda retrógrada e ultrapassada que ele não agüentará ouvir minha voz. Minhas idéias ultrapassadas e grotescas, minha nano-cosmovisão lhe dará arrepios à noite. Como não teremos assunto, porque como foi dito por aqui, não lerei muito, reclamarei de tudo: do seu pé, do seu modo de comer, vestir, andar, das suas notas baixas, suas notas altas, seus troféus, suas derrotas (principalmente), se ele sai, se ele fica, reclamarei, e essa nossa conversa diária me manterá como dono dele, porque ele é meu. Motivos, não sei. Se eu ler algo talvez descubra, mas, enfim.
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:: 5:51 PM ::
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O cavaleiro inexistente - Ítalo
Calvino /
Seis propostas para o próximo milênio- I. Calvino/ Sagarana, Grande
Sertão: Veredas- Guimarães Rosa/ Galáxias- Haroldo de Campos/
Assim Falava Zaratrusta – Nietzsche
/ O Castelo– Fraz Kafka
/ Histórias sem data– Machado de Assis
/ Os 100 maiores contos brasileiros do século
(sonho de consumo)
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